Entrevista na revista Algarve Informativo

“Não estou interessada em concorrer com as grandes marcas que industrializam as suas peças”, garante Sílvia Rodrigues

Texto: Daniel Pina | Fotografia: Daniel Pina e Fotoconcepts By Sérgio Palma

Foi a 18 de maio do corrente ano que Sílvia Rodrigues deu a conhecer ao público «Amar Cássima», com a inauguração de uma exposição e um desfile de moda no Museu Municipal de Loulé. A coleção é baseada na lenda da Moura Cássima e ilustra o amor do pai pelas suas três filhas, Cássima, Zara e Lydia, que, para proteger de um possível cativeiro, as deixou encantadas na fonte em Loulé. A coleção da «Sigues» de Sílvia Rodrigues é, pois, constituída por três componentes, cada uma dedicada a uma das filhas do governador, conjugando a inovação do trabalho feito à mão em papel de jornal, com a tradição das técnicas ancestrais do cobre da Oficina dos Caldeireiros do projeto «Loulé Criativo». E todas são marcadas pelas particularidades das três irmãs, explica a designer, à conversa no Palácio Gama Lobo, onde tem instalado o seu atelier. “Cássima era morena, os cabelos negros caiam-lhe em bandós no vestido verde pálido. É a personagem principal desta lenda e o destaque na coleção, evidenciando a sua importância face às outras irmãs, pois para o seu pai ela era também a filha preferida, a moura gentil e a mais formosa das três. Por seu lado, Lydia, excessivamente branca trazia por norma uma túnica branca, enquanto Zara tinha cabelos de ouro e vestia-se de amarelo”, descreve a entrevistada.

Formada em Design de Comunicação pela Universidade do Algarve, começou por trabalhar em ateliers de design e por dar aulas, com os tempos livres dedicados a fazer peças em papel de jornal, até que, em 2014, decidiu apostar a 100 por cento no seu hobby. “Sentia sempre a vontade de criar coisas e o ensino e o design gráfico não eram suficientes para expandir a minha criatividade. Também observava que as pessoas usavam joias bastante semelhantes, iam todas dar ao mesmo. Quis tirar o papel do seu campo habitual de ação e levá-lo para outra área, mas foi um processo gradual”, recorda. “O papel de jornal é uma matéria-prima que não é reutilizada, lemos os jornais e deitamo-los fora. Aquele contraste do fundo branco com letras pretas fascinava-me, acreditava que podia resultar em algo bonito inserido noutro contexto”, reforça.
Verdade seja dita, se calhar ninguém pensaria que se podiam fazer joias a partir de papel de jornal, mas Sílvia Rodrigues também já produziu candeeiros e malas com este material. É, porém, nas joias que está mais focada nesta fase de vida da marca «Sigues», que começou por dar nas vistas nas tradicionais feiras de artesanato em que a designer participava. Numa fase mais recente, a louletana natural de Querença decidiu introduzir materiais mais nobres, nomeadamente o cobre, presente na coleção «Amar Cássima». Contudo, criar a perceção de valor junto do cliente com peças que, na sua essência, são feitas com papel de jornal, não é tarefa fácil. “Todo o processo para conseguir colocar à venda uma coleção é longo. Começa com um conceito, uma história, passa por muita experimentação, a peça tem que ser funcional e cómoda, os materiais não podem causar alergia, e tudo isso implica bastante mão-de-obra. As minhas peças são únicas, produzidas à mão, não existem duas exatamente iguais e todas giram em torno da temática do amor”, sublinha, com um sorriso. “A mensagem que pretendo transmitir é que é possível seguir o coração e fazer aquilo que gostamos, que assim tudo se torna mais fácil na nossa vida pessoal e profissional. Andamos no mundo de uma forma mais positiva, as coisas não nos pesam, o nosso ânimo é mais leve”, garante.

«Primeiro Amor», «Único Amor» e «Amor de Mãe» foram as coleções que antecederam «Amar Cássima», cada uma surgindo numa altura e contexto específico da vida da autora, e é também essa experiência, esse pedacinho de história, que as pessoas querem levar consigo quando adquirem estas peças. “Acabam por criar relações afetivas com as peças, que são únicas, que mais ninguém vai ter outra igual. Um casal dos seus 70 anos, por exemplo, encontrou-me numa das feiras em que participei e o marido comprou-me a coleção «Primeiro Amor» para oferecer à esposa. Tinham namorado na sua juventude, tiveram uma relação longa e duradoura, mas depois separaram-se e seguiram caminhos diferentes. Casaram-se com outras pessoas, mais tarde divorciaram-se, voltaram-se a encontrar já seniores e, finalmente, casaram-se um com o outro. É uma história que nunca me vou esquecer”, conta Sílvia Rodrigues, entendendo que esta afetividade com as joias só é possível quando se trata de peças únicas, feitas à mão, e não com as que saem de uma linha de montagem industrial. “Cada peça tem a sua própria alma, porque eu também transmito algo de mim quando as estou a fazer à mão. É diferente daquelas paletes de joias feitas à máquina todas iguais”, distingue.

Um longo percurso até chegar à meta

Face a esta relação pessoal criada entre a designer e as suas peças, não foi fácil, no início de vida da «Sigues», para Sílvia Rodrigues libertar-se delas, eram os seus «filhos» que partiam. Depois, há conjugações de cores que sabe que dificilmente conseguirá reproduzir, o que deixa uma marca ainda mais vincada. Mas essas emoções e sentimentos passam para os clientes e isso deixa a entrevista imensamente satisfeita. “As pessoas já conhecem a marca, seguem o meu trabalho, querem as novas coleções, até porque eu consigo alcançar 13 cores diferentes. Há até quem pense que eu pinto o papel. Nós, no dia-a-dia, pegamos no jornal, lemos as notícias e nem reparamos nas cores que existem no papel”, explica, reconhecendo, porém, que esta sensibilização para o valor acrescentado das peças nem sempre é fácil. “Nas feiras tinha que repetir a história da «Sigues» várias vezes. Na loja junto ao Mercado Municipal de Loulé o cliente vai à minha procura, já sabe o que vai encontrar”.

Construir uma marca de raiz não é «pera-doce», ainda mais num ramo onde não existem referências, porque mais ninguém faz este trabalho com papel de jornal. Por isso, este “desbravar de mato” é tremendamente complicado e exige bastante persistência. “É algo que exige de mim muito mais do que as oito horas diárias normais de outras profissões. Eu não utilizo nenhuma máquina, o processo de produção é todo manual, e fui descobrindo as coisas à medida que ia sentindo necessidade de criar algo diferente. No design vamos à procura de soluções para os problemas e é isso que eu faço todos os dias, porque cada coleção encerra os seus próprios desafios”, assegura Sílvia, dando o exemplo concreto da mistura do cobre com o papel de jornal que se verifica em «Amar Cássima». “Lancei as peças conceptuais desta coleção em maio de 2018, só um ano depois é que ela conheceu a luz do dia e só agora, em julho, é que começou a ser comercializada. É todo este percurso até chegar à meta que me dá um grande gozo”, sublinha a entrevistada.

Sílvia Rodrigues enaltece, entretanto, todo o espírito criativo que se tem respirado nos últimos anos em Loulé, muito por «culpa» do projeto camarário «Loulé Criativo», que incentiva os empresários a trabalhar com os materiais e as histórias locais. E assim nasceu «Amar Cássima», baseada na lenda das três irmãs mouras, mas também no cobre que foi conhecer, mais de perto, na Oficina dos Caldeireiros e que julgava que podia sair da sua «zona de conforto» para a joalharia. “Criei o conceito e desenhei toda a coleção, fui um dia à Oficina dos Caldeireiros e perguntei quem é que me podia ajudar a torná-la uma realidade. O Iurgen, um simpático aprendiz do Mestre Analide do Carmo, disponibilizou-se para essa tarefa e fomos fazendo por tentativa-erro, tentativa-erro, até chegarmos às primeiras peças. Foi bastante difícil, porque o cobre tem características muito especiais e é um material que se suja facilmente. Para além disso, as cataplanas são peças grandes e eu queria joias pequeninas, que exigem grande minúcia, uma maior destreza para se ir ao ínfimo pormenor, à perfeição”, aponta a designer.

Ultrapassadas todas estas dificuldades palpáveis, no terreno, de «mão-na-massa», podia-se pensar que tudo tinha ficado mais simples, mas a vertente de gestão e as suas burocracias é outro desafio com que se tem que lidar no dia-a-dia. Sílvia Rodrigues foi-se habituando a essas partes menos divertidas e ganhando competências em vários programas de empreendedorismo em que participou com sucesso assinalável. De facto, ganhou dois prémios de empreendedorismo promovidos pela Embaixada dos Estados Unidos da América em Portugal, um dos quais lhe proporcionou um MBA no ISCTE de Lisboa, o outro beneficiar de mentoring durante um ano com uma empresa norte-americana, tudo isto numa fase crucial do seu trajeto. “Tinha acabado de ficar desempregada, sabia o que queria fazer na vida, mas as dúvidas eram imensas. Acho que algumas pessoas me devem ter chamado maluquinha”, admite, recordando ainda a participação no programa «A New Beginning for Portugal» da conhecida empresária algarvia Sandra Isabel Correia.

As coleções vão surgindo a bom ritmo, a componente administrativa já não é um «bicho de sete cabeças», falta a parte indispensável da comercialização, onde a nova loja no Centro Histórico de Loulé e a loja online são essenciais. “O meu percurso começou nas feiras e nos eventos, foi assim que me apercebi do potencial das minhas peças, que isto tinha pernas para andar. Consegui angariar muitos clientes que me acompanharam depois para o digital, encomendam e eu envio as peças por correio. Fazer feiras é duro, exige de nós muito esforço, mas este contato pessoal com o cliente é importante”, avisa a empresária, que depois sentiu a necessidade de ter uma loja própria para conferir maior sustentabilidade à marca. “Há clientes que se sentem mais cómodos a vir à loja porque o ambiente de feira é demasiado agitado, e estou também presente em algumas lojas parceiras, em Portugal e no estrangeiro, que representam a «Sigues». Não estou interessada em concorrer com as grandes marcas que industrializam as suas peças, o meu objetivo é continuar a fazer peças únicas, personalizadas, com as quais os clientes se identificam, por quem se apaixonam. Vou continuar a contar histórias com as minhas coleções, também para motivar as pessoas a acreditarem no seu potencial, a não desistirem dos seus sonhos. A nossa passagem pelo mundo é demasiado curta e é importante fazer aquilo de que gostamos. Claro que há momentos cinzentos em que me apetece virar as costas e ir embora, não é tudo cor-de-rosa, mas desistir é o caminho mais fácil”, finaliza a designer.